sábado, 14 de abril de 2012

Quem (Não) É Olodumare.


Ou: Apenas um discurso em defesa do Pensamento Abstrato Africano (Nígero-Congolês, Iorúba).

Shango ...

...Olodumare mi!
Shango...
...Meu Todo Poderoso!
(Oriki Shango, Yoruba: Nine Centuries of African Art and Thought, por Rowland Abiodun, Henry John Drewal, John, III Pemberton, e Allen Wardwell.)



Confesso que não sou fã do criacionismo porque todos os deuses que tive conhecimento são tão naturalmente bio-lógicos, e sempre ignorei textos que hierarquizassem o espiritual. Portanto admito que mesmo na minha fé o nome Olodumare nunca teve uma resolução tão boa e satisfatória quanto a que vislumbro agora e gostaria de compartilhar com os leitores deste blog.

Através deste texto apresentarei idéias que irão chocar alguns e fascinar outros. Possam o merecedores da claridade serem encantados e os merecedores da obscuridade serem assustados. Ashé Ashé Ashé/Assim será!

Para iniciar a realização de meus votos do parágrafo anterior, vamos direto ao ponto logo no começo: Olodumare não é deus! Seja com letra minúscula, maiúscula com iluminura ou sem iluminura, ou o que mais for.

A origem da minha “apoteose” foi o trecho de um Oriki Shango colhido em solo Iorúba, que é a abertura desse texto, e que consta em “Yoruba: Nine Centuries of African Art and Thought”, escrita por Rowland Abiodun, Henry John Drewal, John, III Pemberton, e Allen Wardwell.

Vejamos, se Olodumare designasse realmente o nome próprio de uma divindade-suprema, então o que lemos no Oriki supracitado seria uma tremenda heresia. E não estou disposta a acreditar que um culto tão popular e ligado à política/monarquia como o de Shango seja sequer um pouco propenso a heresias.

Assim sendo, ou tendo sido, talvez, só talvez o motivo dessa idéia errônea sobre Olodumare seja um problema de divulgação mesmo, os criacionistas com seu típico proselitismo não se contentam apenas em renegar a validade da espiritualidade e filosofia alheios, eles almejam também disseminar que todos os povos do mundo pensam como eles com relação ao fator ‘criação’, assim eles ainda podem ter uma imagem mais boazinha dizendo coisas do tipo, “cortando a pluralidade de divindades, eles nem estão tão perdidos e ainda tem jeito, eles até conhecem o NOSSO deus fodástico, só que com outro nome (?!)”. Muito vantajoso, politicamente falando.

Olodumare pode ser melhor entendido como o poder – a força - que não vai deixar de ser o que é por causa da bajulação de alguém. Por mais que esse conceito parecesse muito abstrato e, na mentalidade racista da cultura dos padres e etnólogos, inconcebível tanto ao negro quanto à sua África. Ao que parece é um típico erro repetido pelos autores que copiaram outros autores anteriores, como Pierre Fatumbi Verger demonstrou inúmeras vezes com suas pesquisas mais apuradas e purificadas de pré-conceitos.

Quando digo bajulação não o faço pejorativamente. Os Orisha em geral, como deuses que são, são adorados e bajulados, assim como a divindade de Abraão. E nada mais natural se partirmos do ponto que essas divindades são Ancestrais, pais de um povo, etc, favorecem seus descendentes. São divindades criadoras, e se procriam é porque foram procriadas. Olodumare é o incriado, sem começo nem fim que só é elogiado a nível de reconhecimento, não com intuito de petição.

Olodumare designa um conceito que está muitíssimo mais para o que diz a Teoria do Caos que alguns cientistas propõe para explicar a Matéria, do que para qualquer outro paralelo no campo da mitologia (e/ou religião) comparada.

Para testificar minha afirmativa de que conceitos abstratos não são exclusivos ou primordialmente da cultura Indo-e-Européia, nem aliens a qualquer cultura por mais orgânica que seja, mas são característicos da cultura Humana per se (como já atestaram os achados na Caverna de Blombos, datados como de aproximadamente 70.000 a.E.C.), citarei o exemplo de três divindades Iorúba (Negro-e-Africana) cujas bajulações (oriki: elogios) expressam nitidamente o caráter abstrato de Olodumare.

São elas e suas abstratas atribuições: Orisha Agemo, Ologun-Édé e Oshumare. Orisha Agemo, o mutável-camaleão, Oshumare, o surreal arco-íris e também as luminárias celestes de modo geral, e Ologun-Édé, aquele que veste a pele que desejar – clara ou escura.

As divindades são, no conceito Iorúba, manifestações tangíveis e definidas (petrificado e divinizado são sinônimos no contexto religioso Ioruba) de Olodumare, do incapturável e imenso: do todo. Portanto seria correto afirmar: as divindades estão em Olodumare, como tudo, mas são divindades porque unem em si o poder de realização conjunto ao de favorecimento, ou seja numa esfera mais antropocêntrica.

O deus das fés Abraâmicas, bem como os deuses-chefe dos outros panteões (incluindo qualquer divindade proeminente em determinada região das terras Iorúba) são propiciáveis, eles favorecem um determinado povo, desde que este lhe obedeça corretamente. Olodumare não é manipulável, seja por via de adoração ou o que mais for, ele é poder aquém da esfera de desejos de qualquer ser-individual ou comunidade. Apenas é. O fato das divindades poderem ser elogiadas por este termo, declara de uma vez por todas que o mesmo não quer dizer deus-único-e-todo-poderoso como é normalmente traduzido e situado em comparação ao deus das fés Abraâmicas (com exceção de Allah, que não é tribal, e cujo decreto é inalterável [destino]).

Um exemplo de manifestação-ultra-realista do poder desse todo são as chamadas catástrofes naturais, a casa do adorador de qualquer divindade temívelmente adorável do mundo não será privilegiada a ponto de ficar seca numa tsunami, nem mesmo um templo em meio a um terremoto ficará sem tremer, etc. Por isso Eshu, a divindade ligada aos acidentes e mudanças drásticas que percorre toda a existência sempre figura tão próximo de Olodumare, e de fato é o primeiro deus criado na cosmogonia Iorúba, portanto é a primeira fisicalização de Olodumare.

Olodumare enquanto ‘primeiro nome’ não é sinônimo de “o que os cristãos e judeus chamam de Javé”, simplesmente porque divindades são adoráveis e favoritistas. Isso derruba a comum afirmaçõ não-tão-ingênua dos colonizadores professam uma fé Abraâmica, que interpretam Olodumare afirmamdo categoricamente que entre os Ioruba “ele” é o correspondente da sua “divindade suprema das Escrituras”.

Esta coesão impecável que os ocidentais chamam Natureza faz com que o epíteto em si não signifique apenas ‘divindade criadora’ como alguns deuses chefes de panteões fixos do mundo todo, significa mais precisamente algo como “poder imenso, ilimitado”.

Olodumare enquanto Natureza em sua mais realística manifestação, impessoal e impersonificada, é um nome para a indefinível e sempre-mutável expressão da imensidão insondável. Olodumare é o todo-não-fragmentado que evolui sem preocupar-se com a esfera humana, e é este o motivo fidedigno de não existirem oferendas ou sacrifícios propiciatórios que lhe sejam rendidos, nem sequer culto centralizado a sua volta. Não tem nada a ver com alguma suposição tipo: "entre os Iorúba a popularidade dos deuses menores suplanta a do deus-maior". . Simplesmente porque Olodumare não é Deus com letra maior nem deus com menor, e porque Deus algum pode ser indefinível como o é Olodumare.

Ashé.


Olo = Possuidor
Odu = Escuro, recipiente, útero
Ma = em processo de
Re = muda (de pele,cabelo, penas, folhagem, etc) mudança; talvez daí o nome da píton representativa de Oshumare (Ere = píton, E= variação de oni = possuidora + re = muda de pele).

Seria o mesmo que Olorun = Possuidor do céu. O céu mutante com suas variações de cores e luzes (mare). Assim como mare em Oshumare, esfera mutante, as luzes no céu geralmente parecem esféricas ou curvas.

Talvez Olorun seja referencia à vastidão celeste diurna (orun = sol) e Olodumare à noturna (odu = escuro, útero, pote). O sufixo mare em Oshumare também pode ser interpretado como possuindo conotação noturna, uma vez que oshu também significa lua. Talvez as cores atribuídas a Oshumare, o azul e o vermelho, respectivamente as cores do amanhecer e do crepúsculo, sejam em referência a estes dois momentos de inignorável mudança no céu.

Um comentário:

I. disse...

Adorei esse texto. Conheço muito pouco sobre a mitologia yoruba mas pensava em uma ideia mais ou menos assim sobre essa ideia de "Deus supremo" que me parecia um tanto engolida de outras histórias...

"Sob a linguagem do poeta jaz a chave do tesouro". Nizami

A linguagem do Artista, que mente e revela, resguarda e presenteia, é assim, una, não dual, mas completa.

'Ihy Maut! Ankh-na-Maat.'

"Ele que é iluminado com a mais Brilhante Luz moldará a mais Escura Sombra; Ele que é iluminado com a mais Escura Sombra brilhará com a mais Brilhante Luz."
-A. D. Chumbley-